Situando sr. Smith
Em um sábado chuvoso de janeiro estava eu, carregando um guarda-chuva, algo que dificilmente uso para outra função que não seja me apoiar nos dias em que meus sapatos estão me matando pelo tempo em pé que fico dentro da minha loja de tecidos, tempo esse que agradeço muito a D'us pelo movimento de alfaiates que procuram meu pequeno estabelecimento, pois parece que Coventry virou uma cidade que só fabricam relógios pelo tanto de procura. Meus passeios tardios que faço de casa para a loja com a desculpa para ver se ninguém danificou a frente do meu comercio é na verdade um tempo que tenho a sós com as vozes de minha cabeça para identificar soluções de vendas, já que com essa recente guerra, quem não for um grande industrial ainda tem menos horas de noite de sono.
Como se não bastasse os problemas enfrentados comercialmente, estamos próximo de completar um ano dessa debilitação causada estranhamente pelos americanos que eu costumo chamar "surto febril". Minha esposa diz que estou desafiando a minha sorte por não cumprir o Shabbat e por isso perco noites de sono. Sei que ela fala essas coisas por tentar me convencer a ficar mais tempo em casa, já que se preocupa com tantas pessoas doentes que possam passar pelo meu comércio. Eu sei que é melhor omitir algumas coisas em nome da sua paz, mas esse é o preço que se paga por ter um amigo do Daily Mail, muitas vezes sabemos das notícias antes de sua circulação pelos papeis. Com certeza a história sobre a morte de um presidente da America do Sul há 9 dias, dita ser por essa gripe, a abalou mais do que o normal.
Infelizmente não tenho como evitar me expor a esse perigo e conto com minha saúde - apesar de carregar 3 décadas de vida - muito menos em um período que resolvi seguir o conselho do sr. Ford para melhorar as vendas de minha loja. Vejo que minha funcionárias trabalham com mais disposição, apesar de estar seguindo o conselho de uma produção automotiva para uma loja de tecidos. Estamos em tempos para arriscar. Até falam que chegará uma montadora de veículos automotivos aqui, mas, o que falam por aí sempre é bom desconfiar. Caso aconteça, espero que meus tecidos não fiquem mais esquecidos. Relógios já me causam dores de cabeça suficiente! O que me dá um pouco de tranquilidade é que meu pai não precisa ficar mais com a responsabilidade de administrar meu comércio depois das políticas sociais que nosso Primeiro Ministro, Lloyd-George, elaborou. Acho-o uma figura estranha pelos atos da guerra e os problemas de seu partido, mas, creio que em breve meu pai poderá se acomodar em sua casa com suas economias e uma seguridade mais confiante.
Sua Majestade deve estar com certa satisfação do governo instituído, apesar de eu não ler muitas notícias para saber o que acontece na Casa de Windsor. Só imagino o quanto deve ter sido doloroso o rei saber da morte de seus semelhantes da Casa Romanov, principalmente por terem o mesmo rosto! Bem, eles podem se recuperar melhores do que eu, já que não tenho uma cidade dentro de minha casa para servir-me. Falando em casa, melhor eu voltar pois não quero estar com risco de me resfriar nessa chuva, já que tenho um importante almoço com meu amigo James, o melhor conselheiro de negócios que conheci. Só espero que não venha com mais notícias aterrorizantes do jornal onde trabalha, pois estou a ponto de ser acorrentado pela minha esposa em minha banheira para garantir que nada acontecerá comigo. Creio que não, pois sempre aos domingos, quando ele nos visita após sua passagem pela Catedral do centro, vem com mais otimismo, mas, uma vez da imprensa, sempre a imprensa.

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